sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Pensar o Cristianismo

A palavra "messias" vem do hebraico "masiah" (e do aramaico "mesiah"). Significa ungido (consagrado), que, em grego, se diz "christós". A nossa língua adoptou tanto a palavra hebraica como a tradução grega: Messias e Cristo.
Por que será que Jesus não mostrou nenhum entusiasmo quando lhe chamaram "Messias de Deus" e exigiu aos discípulos que não tocassem mais no assunto? Que viragem tornou inseparáveis, desde há dois mil anos, o nome de Jesus e o título Cristo (ou Messias)?
Na herança de Israel, além do messianismo religioso-político, havia várias outras tendências fortemente contrastadas e em contínua mudança sobre a forma como o Messias se devia manifestar e agir. Nenhum desses modelos se ajustava, porém, à significação que Jesus imprimiu ao seu modo de agir e de falar. Nenhum deles correspondia sobretudo àquilo de que o mundo mais precisava.
A partir da sua experiência do Amor infinito e do seu contacto diário com os mal-amados deste mundo, viu que era preciso alterar até à raiz a relação do homem com Deus, a relação de cada um consigo mesmo e com os próprios inimigos. Esta é a essência da sua pregação sobre o Reino de Deus: uma semente, um fermento para mudar a direcção da vida e a própria vida.

Jesus não morreu de velho, de doença ou de um acidente. Foi morto por tentar romper com os esquemas que atam os homens à lógica da dominação. Na sua morte, acompanhado pela compaixão e pelo perdão aos inimigos, abriu o caminho para a reunião de todos os filhos de Deus dispersos pela ambição, pela intolerância e pelo ódio. Introduziu na história humana o fermento de uma outra lógica: a da compaixão, do perdão e da solidariedade.


Quem, como Jesus, perde a vida para não trair o sentido da vida como dom incondicional para a alegria de todos, ajuda a transformar radicalmente o fundamento da esperança e do messianismo. O futuro não pertence àqueles que matam, mas a quem dá a vida pelos outros: quem perde, ganha; quem teima em ganhar à custa dos outros já está perdido.


A tentação do recurso à violência para responder à violência é de todos os tempos e não é exclusividade de ninguém. É a lição de Cristo vivo na Liturgia de hoje, a propósito dos "filhos do trovão". Como dizia Isaac, o Sírio, no séc. VII: "Sê um perseguido e não um que persegue. Sê um crucificado e não um que crucifica. Sê um ultrajado e não um que ultraja. Sê um caluniado e não um que calunia. (...) Purifica-te e verás o céu dentro de ti."


Para Alexksandr Men, morto na Rússia em 1990, só homens muito limitados podem imaginar que o cristianismo já está concluído. Na realidade, só deu os primeiros passos, passos tímidos na história do género humano. A história do cristianismo está sempre a começar. Tudo o que foi conseguido no passado, tudo aquilo que agora chamamos história do cristianismo, não é mais do que um conjunto de tentativas - algumas em falso, outras mal conseguidas - para o realizar.


A essência do cristianismo não é a conserva de uma herança, a salvaguarda de um passado: "Quem olha para trás depois de deitar a mão ao arado, não está apto para o Reino dos Céus", diz-nos Cristo na Missa de hoje. Os chamados "conservadores cristãos" são os guardas ruidosos de um túmulo vazio.
(Excerto de um texto de Frei Bento Domingues)


A luta entre o bem e o mal, entre Deus e o Diabo parece ser o maior mal da humanidade. Os povos mais primitivos criam haver muitos deuses, cada um comandando uma força da natureza, e a vontade dos deuses das coisas boas, produto das cabeças dos seus seguidores, era o bem a ser seguido.


Os persas simplificaram um pouco o universo divino, com Masda (deus do bem) e Arimã (deus do mal). Já os hebreus, monoteístas, idealizaram Satanás, o anjo caído, como comandante das forças do mal. Entretanto, os chamados defensores do bem sempre fizeram muito mal à humanidade.

Os reis do Egipto, da Babilónia e outros que se destacaram no passado assassinavam os que não se curvassem e adorassem seus deuses.

Ainda que perfeito, justo e bom, o omnipotente Jeová teria determinado ao seu povo escolhido a destruição de diversas nações e se comprazia com o cheiro da carne queimada de animais e até mesmo a morte de seres humanos que lhe eram oferecidos. Sua vingança atingia até a terceira e a quarta geração de quem desobedecesse à sua vontade.

Jesus, o Cristo, não pregou violência. Seus seguidores deveriam resignar-se a todas as injustiças e convencer o mundo à paz, devendo receber sua recompensa após o dia do julgamento divino em que os maus sofreriam o devido castigo. Mas os que se denominaram seus sucessores, seus representantes na Terra, entregaram-se à vingança e destruição de todo e qualquer indivíduo que se opusesse às suas regras. Milhares de pessoas foram queimadas ou mortas sob outras formas de tortura, tudo em nome do bem, em nome de Deus.

Hoje, quando grande parte das religiões são pacíficas, algumas ainda procuram fazer guerra santa contra quem não compartilhe de seus credos, e o terrorismo que assusta o mundo actual também é chamado de guerra do bem contra o mal. Mas, que bem é esse, que reprime os prazeres, impõe até os pensamentos e comete grandes atrocidades?

1 comentário:

Marcos Satoru Kawanami disse...

Exacto. Concordo plenamente, e, tendo teu texto sido deveras abrangente, nada posso acrescentar. Está joia!

:D
beijó(K)awanami